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15 de Junho de 2021

Continência militar: breves anotações

Tiago Brito, Capitão da Polícia Militar
Publicado por Tiago Brito
há 6 anos

Desde tenra idade contemplamos e admiramos, encantados, a saudação típica dos militares: a continência. Fascinamo-nos com os desfiles cívico-militares, e logo a maneira como seus integrantes saúdam uns aos outros é objeto de nossas imitações e brincadeiras: movimento enérgico, elevação da mão direita, palma voltada para o rosto, ângulo de quarenta e cinco graus entre antebraço e tronco, dedos unidos e distendidos, atitude, gesto e duração.

Nesse período da vida não sabemos bem o significado desse ritual, mas talvez por intuição (e um quê de espontaneidade) conseguimos compreender mais ou menos o conteúdo intrínseco desse cumprimento marcial, e percebemos a relação de intimidade e respeito existentes entre destinatário e emissor da saudação.

Essa concepção singela, embora eminentemente empírica, natural e espontânea, faz emergir o viés axiológico que se deve emprestar à continência, revelando e conclamando o resgate dos valores e da simbologia castrenses, outrora tão venerados e sedimentados nas organizações militares.

É intrigante (e nada é por acaso!) como uma concepção genuína, inocente, carrega em si elementos ontológicos da essência desse icônico instituto.

Preconizam historiadores que a gênese da continência remonta a Idade das Trevas, quando cavaleiros medievais, ao passarem por outros da mesma categoria, levantavam o visor de seu elmo com a mão direita, olhando diretamente para o companheiro, em sinal de respeito e amizade, reafirmando partilha de habilidades e valores, bem como a inexistência de qualquer hostilidade. Noutro viés, fala-se também que sua origem está no ritual pré-batalha daquela época, quando os combatentes se apresentavam ao seus superiores, segurando a rédea do animal que montavam com a mão esquerda e levantando a direita para sinalizar a prontidão para o embate. Em ambos os casos percebe-se que as bases principiológicas da continência têm por fundamento valores como a amizade, o companheirismo, o respeito, a confiança, a credibilidade e a reciprocidade entre os sujeitos desse processo. Esses são os seus vetores históricos imanentes.

No entanto, hodiernamente, se tem deturpado o instituto. Infelizmente, não poucas vezes, presenciamos, principalmente nas "casernas estaduais", o vilipêndio e a execração pública do gesto secularmente enraizado na cultura militar: superiores hierárquicos tomando-a como mecanismo de subjugação, de autorreferenciamento egocêntrico e de imponência; subordinados concebendo-a como símbolo demonstrativo de sua inferioridade e do poder hierárquico alheio, autoflagelando-se psicologicamente em função do status quo até então alcançado e da posição que ocupa dentro da carreira castrense. Uns utilizam-na com tamanha virilidade e prepotência, que as veias expostas com o movimento, por si só, demonstram quanta tirania corre àquele sangue. Outros quase não conseguem elevar a mão à face, ou apenas se limitam a desencostar levemente as nádegas igualmente cansadas do local em que repousam.

Essa situação é prejudicial aos valores do militarismo, e faz-se premente uma guinada mental no seio de toda a classe militar, do nível estratégico à execução, sob pena de enterrarmos viva uma tradição secular. Temo que estejamos em estágio tal que não consigamos mais resgatar os valores que realmente são intrínsecos a nossa histórica e tradicional saudação: a continência!

Talvez no princípio da nossa existência, quando ainda somos meras crianças, os bloqueios naturais que a experiência cultural sedimenta em nossas almas estejam fracos, permitindo aflorarem em nós as reminiscências genealógicas a ela imanentes. Por isso o encantamento e êxtase espontâneos. Não nos resta outra solução senão voltarmos a ser "criança" e, paradoxalmente, deixarmos a infantilidade para trás.

Continncia Militar

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